-É bom, mas não é mais maravilhoso, sabe.

-Humm…
-É como se algo tivesse morrido nesse meio tempo.
-Tipo a história de Heráclito…
-Exato!
-E tu tem sofrido por isso?
-Acho que sim… porque tenho a imagem daquele como o melhor e mais intenso mergulho que dei. Dói reconhecer a mudança. Mas ao mesmo tempo, insistir nisso para verificar se realmente houve essa transformação e sempre, todos os dias, a cada novo mergulho, ter a certeza de que sim… ah,  isso dói ainda mais.
-Eu sei como é. Passei por isso há uns anos, quando eu e minha ex-companheira nos olhamos no fundo dos olhos em uma noite chuvosa e, entre uma taça de vinho e outra, chegamos a conclusão de que éramos mais soliTárias e tristes quando estávamos juntas, e mais soliDárias e felizes quando separadas. A nossa verve militante e socialista não nos deixou seguir naquele relacionamento, evidentemente. Mas, me diz: por que tu segue insistindo?
-Auto-boicote eu acho. Tédio da solidão… eu não tenho sido minha melhor companhia ultimamente.

Ela não soube o que responder. Não compreendia direito o que era esse medo de estar só, mas sabia que doía na sua amiga. E em outras amigas, também…

Preferiu o silêncio. As vezes é a melhor maneira de fazer companhia pra alguém.

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Equitação moral. Ou como perder um gol de placa.

O dia de ontem foi um grande desencontro.

O que me fez lembrar da minha querida mãe que, querendo me estimular a fazer alguma coisa, dizia: “filha, o cavalo encilhado só passa uma vez!”. Não sou muito afeita às analogias da equitação, mas reconheço que – tendo essa frase em mente – sempre me comportei como boa amazona.

Para mim o dia de ontem foi algo como aqueles lançamentos perfeitos, que ligam o meia-armador e o centroavante e que este, por uma passada a mais na corrida ou um respiro maior para tomar fôlego, perde o tempo da bola e chuta o ar.  Ao tombo do centroavante segue-se a saída da bola pela linha de fundo.

É isso. O dia de ontem foi o desencontro da bola com o pé do centroavante.

Ou então o cavalo encilhado de minha mãe… que já corria longe…13124936_976116782501745_4687317612230671255_n.jpg

Poética (da dissertação)

Estou farto do lirismo sofrido
Do lirismo sufocado
Do lirismo dos prazos acadêmicos das datas de banca e de arguição do sr. orientador.

Estou farto do lirismo verborrágico e teórico que vai argumentar pela coerência causal a validade de um cálculo.

Abaixo os tecnicistas.
Todas as palavras sobretudo os esoterismos multicausais
Todas as construções sobretudo as rimadas pela paixão
Todos os ritmos sobretudo os que fogem ao compasso

Estou farto do lirismo regulador
Meritocrático
Pragmático
Midiático
De todo lirismo que sob o discurso da ordem e da forma gera uma conclusão

De resto não é lirismo
Será homogeneidade formatada, com referência na ABNT. Artigo, ensaio, monografia  padrão. Narrativa estruturada, abjeta e mesquinha.

Quero antes o lirismo dos textos caboclos
O lirismo dos capítulos exaltados
O lirismo difícil e pungente dos argumentos contrariados
O lirismo dos poemas leminskianos.

– Não quero mais saber do academicismo de plantão.

 

(Paródia do texto “Poética” de Manuel Bandeira)

O silêncio que dói menos

não é o nada ou o pouco. o silêncio é tudo desorganizado e do lado avesso.
a minha dor também é um cacheado negro, que nem a tua, em outros tempos. mas não é o vazio.
a minha dor é cheia. tão cheia quanto o silêncio… aquele que te sufoca, sabe?
o trabalho não é escolher as palavras, mas saber que essa escolha será em vão…
que as palavras são inúteis pra falar sobre a minha dor.
por isso prefiro o silêncio.
doi menos, eu acho.

Morreu a mãe

Morreu a mãe. Tu a matou com teu silêncio covarde.

O que restou foi uma viúva cheia de cólera faminta pela tua cabeça. Sedenta pelo sangue que corre das tuas feridas.

Morreu a amiga condescendente, esperançosa. No lugar dela ficou uma mulher forte e cheia de energia, mas que transborda mágoas e rancores.

Para ti, a minha imagem será pra sempre a de uma frieza incontornável, irrevogável, implacável. Quero distância da tua pessoa. Te desprezo pela falta de atitude e de coragem para com a alegria.

Contigo não quero mais dividir o passo. Não quero nenhum amasso. A ti direciono todo o meu descaso.

Infantilidade infame te rodeia e me causa náusea. Homem pusilânime, como outro qualquer, é a imagem que ficou. Figura que desconsidero e desgraço. Vou cavar um abismo com minhas próprias mãos para ter certeza de que esse saco de bosta que é a tua pessoa jamais se aproxime de mim novamente. Cuspirei ao vento palavras hostis e vis para que elas cheguem até ti como um fantasma a te amedrontar nas noites de inverno.

Covarde. Covarde. Covarde de merda.

Incapaz de se responsabilizar com a própria existência. Sem força para sair de um relacionamento putrefato e mesquinho. Acomodado com o próprio pus que escorre da úlcera que cresceu do teu sedentarismo e da tua inação. Eu te quero longe, afogado na cera que se criou pelas bordas dessa vida passiva e medíocre.

Ass. A tua mãe morta.